14 de abril de 2019

A criança magoada

É, não está tudo bem. Chegou o dia em que vamos nos sentir como a criança magoada que ficou irritada por não ser especial, por não ter toda atenção desejada, por não ter sido colocada em primeiro plano.

Em alguns momentos da vida, jogamos no colo do outro essa responsabilidade de nos fazer felizes. Da criança melindrada, podemos virar o adulto que cresceu passando pela mágoa, sem ninguém para dizer que resolver e dissolver tudo isso é uma responsabilidade nossa. E, nessas condições, nos tornamos o adulto que temos condições de ser. 

O melhor é saber que isso não precisa ser definitivo em nossas vidas. E que podemos fazer diferente a partir de agora com cuidado necessário conosco. 

E quando falamos sobre isso, falamos e chamamos atenção para o que ocorreu com aquela criança, particularmente com a nossa criança. Assim nos tornamos conscientes e podemos nos observar mais. 

Veremos aquela criança que ainda se melindra e tem dificuldades de aceitar e de se aceitar em determinadas situações. Aquela criança que recebeu o que pode ter sido insuficiente de um outro que também tinha as suas dores e talvez também não sabia lidar com elas. 

A partir do momento em que entendemos que o outro, seja lá quem for, a nossa mãe, o pai, a avó, quem quer que seja na nossa infância, fez o que podia ao nos encaminhar e acompanhar ao crescer, as coisas podem ser amenizadas. É entender que foi com o amor que o outro tinha, com o amor que podia, com o amor que sabia dar. Até com o que não tinha, muitas vezes. Doação, esforço, tentativas. 

Não sabemos nada do vivência do outro e, às vezes, nem sabemos ao certo sobre a nossa própria vida. A criança magoada pode ter vindo de mágoas não dissolvidas por muitas vivências anteriores e até de tempos de insensibilidade e de falta de maturidade. 

Tantas possibilidades de ter mais de um talvez em nossas vidas. São muitas. E não saberemos o que teria acontecido se algo fosse diferente lá atrás. Mas é possível mudar agora.

Ou quando decidirmos que chegou a hora da mudança e de olharmos de verdade para o que precisamos mudar. 

A partir daí, é importante dar atenção e ter cuidado com cada evento, com cada ação, com cada reação, com cada escolha. Porque são baseadas nas escolhas ansiosas ou nas escolhas refletidas que as decisões nos chegam.

Desacelerar, respirar, observar quem está respondendo no momento. A criança magoada, ríspida, egoica, com o orgulho apoiado no medo. Ou o adulto inseguro que se apoia na criança para não reconhecer que tem medo. A base do medo se sustenta nas duas condições. Basta decidir como passar por cada um deles.

Novas escolhas fazem propostas de mudanças de padrão, de novas sensações, de dores ainda desconhecidas. Mas dores são inevitáveis. E, mesmo que a vida se repita, um evento nunca será igual ao outro. Mesmo com as mesmas pessoas. Porque o tempo não se repete e todos vivem momentos distintos em diferentes momentos e sentimos de outra forma também. 

Um caminho é experimentar o que vier e decidir como lidar com cada dor que chegar. No momento exato dela. Entender como ela nos chega e o que podemos fazer com aquelas sensações todas que surgirem naquele momento. No presente. Estar presente e consciente pode ser de grande ajuda. 

Que possamos nos ajudar. Que possamos nos acolher. Que possamos entender que somos o que podemos no momento. E que, se estiver muito difícil e muito pesado, não precisamos ter medo de pedir ajuda, pedir ajuda mais de uma vez, pedir ajuda sempre. Quando tudo apertar. Quantas vezes forem necessárias.



28 de março de 2019

O quanto vale a dureza?


Não sei quem já observou ou conseguiu lidar com a dureza que surge em alguns momentos da vida. Aquele escudo que, muitas vezes, construímos ao longo do tempo e que é um caminho que acreditamos que serve para nos defender. Também não sei se todo mundo pode reconhecê-la em si. Às vezes, insistimos que não a guardamos para as situações que surgem. 

Quem a tem talvez consiga compartilhar o quanto que ela é presente em situações-limite. É uma quase certeza de que esmorecer, desarmar, soltar pode levar a um caos que a mente insiste em dizer que não será possível reorganizar. Sabem como é?

Bom é quando nos chegam aquelas ideias para muitas pessoas consideradas malucas. “Nao! Preciso ser forte para sustentar o outro”. “Nao, preciso não amolecer para servir de apoio”. “Não, preciso segurar o que for necessário para dar o máximo que tenho”. “Não, não é hora de me abalar para que o outro não perceba a minha fragilidade”. Sempre vem com o não, não e não. Podem ser ideias como essas em vários formatos e com vários tipos de justificativas.

O pensamento insiste em dizer que a dureza é necessária. E aí? Quem poderia nos dizer se, com a dureza, podemos levar leveza ao outro? Quem pode nos ajudar a decifrar se construir muros quase impenetráveis nos permitirá mostrar o que vai além deles. Do que nos vale a rigidez avaliada como suficiente em momentos em que a emoção é o maior peso de uma balança? Quem vai nos garantir que isso fará realmente a diferença que gostaríamos?

Pensar na dureza pode nos trazer previsões a serem cumpridas quase que milimetricamente dentro de contextos estabelecidos. Rigidez pode nos deixar dentro de uma redoma que nos parece impenetrável até mesmo para boa experiência. O afastamento do sentir pode nos tornar insensíveis muitas vezes pela distância emocional que nós escolhemos por impor essa opção em determinada situação. Já pensamos sobre isso?

Na grande maioria das vezes, podemos acreditar que o olhar firme e forte que pode servir como escudo aos olhos de quem precisa de um afago é o que se espera de melhor. Certamente conhecemos aquela postura quase inflexível para mostrar sustentação ao outro, não é? Quase sem movimentos, sem respiração. Será que conseguimos visualizar isso?

A questão é que a rigidez pode ser responsável por matar bons sentimentos. Pode ser um perigo à nossa leveza, paz, empatia, carinho com o outro. Pode ser. Há quem diga que a tem na medida exata. Tudo bem. Tudo nos é permitido. Mas nem tudo nos convém. Que possamos compreender e avaliar o que nos faz melhores. O que realmente nos convém. E que seja com o que nos faz bem. Com dureza ou não.



19 de março de 2019

Sinto muito

Nesses últimos tempos, tenho pensado por qual motivo nós vemos e não enxergamos, ouvimos e não escutamos, presenciamos e não sentimos. Às vezes, parece que vivemos a esmo, quase como zumbis, passando apenas por um lado da calçada sem ao menor olhar para o lado oposto para saber o que, de fato, há por lá. Queremos andar. Apenas andar. Nem que seja para trás. Um quase vagar. Vamos duros. Inviáveis. Imutáveis. Sem maleabilidade nenhuma.

E aí eu fico me perguntando em que momento nós viramos pau, pedra, gelo, concreto? Nesse que parece um fim de caminho. Em que momento o fio se rompeu e ficamos pendurados nesse abismo que nos traz a sensação de que vamos sucumbir, que não há salvação e que quem andar pelo outro lado da calçada merece cair antes?

E me indago como chegamos ao ponto de tanta separação, tudo tão partido, repartido, num exagero unilateral. Tudo egoisticamente tão solitário. Tão nu. Tão cru. Por escolha, o que é pior pra nós. 

Tudo sem empatia, sem compaixão, sem benevolência, sem amor. E aí conseguimos ver que é muito isso. Sem amor por nós mesmos. Sem amor pelos nossos. Sem amor pelos deles.  Sem amor pelo outro. Sem amor. Sem amor.

Será que nós nos perdemos num mar de frustração, presunção, excessos, crueldade, exclusivismo? E, se for, nem sei onde isso vai nos levar. A barbárie escancarada e, algumas vezes, comemorada nos sentidos opostos nos esclarece que algo está muito errado. Em nós. E não vemos. E não ouvimos. E não sentimos.

Não sentimos. Não sentimos. Não sentimos mais. E eu sinto muito. Muito. Muito.



** Importante dizer que esses pensamentos não querem generalizar e nem apontar para cá, para esse ou aquele. Foi só um sentimento que veio num momento de reflexão diante de tantas coisas que passamos hoje em dia por aqui e também algumas vezes pela falta de indignação em determinadas situações da vida. Sei que cada um pensa de uma forma e meu respeito a cada um de vocês, viu! Sintam-se todos abraçados.

11 de março de 2019

Somos o que somos

É sobre não desistir. Insistir mesmo. Fazer e refazer. Muitas vezes. Independentemente do que pensam, acham ou esperam. Fazer pelo prazer de realizar o que se quer, o que se sonhou, o que se projetou. O que faz a vida mais feliz e mais plena.

Muitas vezes virão os olhares de sorriso. Daqueles que dizem “vá em frente”, “estou com você”, “tão bom ver você realizar”. Algumas vezes, a certeza de que o caminho parece se somar à empolgacão de ser o que se é já faz o dia ficar mais bonito. É o sinal de que estamos no fluxo, no que escolhemos, no que queremos. E isso nos basta para prosseguir. Quando a gente consegue encontrar a estrada do que somos, do tanto que podemos e do que será possível superar, a vida ganha novo sentido. E vamos cada vez mais além de nós. 

Mas, muitas vezes, virão os olhares de reprovação, sustentados pela inveja às vezes nem sentida pelo outro. Outras vezes, o desânimo vai se somar a uma fala qualquer de quem nunca teve coragem de ser o que é. Por vezes, vai ser só uma sensação de cansaço e de que nada caminha. Por vezes, vai ser a voz de quem realmente importa.

Nesse momento, tudo vai parecer desmoronar. Tudo vai parecer não ter rumo. Mas vamos então nos aproximar desse sentimento e observá-lo bem. Pode ser aquele medo do fracasso, da expectativa do outro e não a nossa, da ainda distante meta, do olhar paralisado por projeções que não condizem com a realidade. Pode ser só o nosso temor da frustração.

O que é, de certa forma, normal. Afinal, nascemos e crescemos para buscar uma perfeição idealizada, trancados em moldes que nos dizem o que é o sucesso. O sucesso do outro, o caminho do outro, o encontro do outro consigo. Olhamos o outro e traçamos o que talvez podemos ter. Muitas vezes, aprendemos que precisamos desse ou daquele caminho. E nunca que devemos construir o nosso.

Não olhamos sempre o que somos, nossos potenciais, nossas possibilidades. Deixamos de observar o que é nosso. Somos comparados e nos comparamos com o que nem sempre pode ser comparado. Acreditamos muitas vezes que vivemos no reflexo do outro.

E geralmente, em algum momento da vida, pode ser assim com todo mundo ou com meio mundo, vai saber.  Podemos até começar a vida assim. Até o momento em que aprendemos a nos olhar. Isso quando, de fato, aprendemos a nos olhar mesmo. Muitas vezes, vemos mas não nos enxergamos. Ou nos escondemos de nós.

É difícil nos depararmos com o que temos de sombra, com o que é difícil de compreender. As coisas boas costumam ser mais claras porque permitimos que elas se mostrem. Mas e o que não é tão bom? Fica lá no fundo, no fundo mesmo.

Entrar em contato com o que temos de sombrio, com as nossas imperfeições, sem deixá-las guardadas debaixo do tapete, pode ser um bom início para que possamos olhar para o espelho e reencontrar quem somos. E, assim, pensar nas mudanças possíveis, desejáveis, necessárias. As mudanças para que possamos ser o que somos. Simplesmente nós. Um brinde ao encontro e ao reencontro.


1 de outubro de 2018

Outra metade

As pessoas não vão pensar como a gente sempre. Não terão os mesmos desejos. Não vão escolher os mesmos caminhos. Seguirão na direção contrária. Muitas vezes nos deixarão chocados. Quando esse outro não é aquele que nos toca o coração e preenche os espaços que lhe oferecemos na vida, observar e ver que fazem escolhas tão distintas nos parece aceitável. Pode até ser, de certa forma, um pouco mais simples entender que a opção do outro cabe apenas a ele, apesar dos pesares. 

Mas quando vem daquele ser que temos a certeza de que a falta do seu apreço nos fará pagar um alto preço no desamor, o assunto é diferente. O mundo quase acaba, a casa praticamente desaba, perdemos até a respiração. O ar nos falta e a sensação é de que o chão se abriu e vamos para um abismo de solidão e não vamos mais nos recuperar. E aí pensamos: como o outro pode fazer escolhas tão distintas? Não éramos almas gêmeas, metades, partes iguais? Dramáticos, sim, com a nossa razão e com a certeza da perda. Doloridos pela ausência e inconformados com a mudança.

Parecíamos ser os mais completos do mundo e o todo mais possível naquele instante da vida em que as escollhas convergiam, em que as escolhas se misturavam e se completavam, em que as escolhas pareciam até simultâneas. Mas eram escolhas. E tudo bem. Porque na vida fazemos escolhas todo tempo. Escolhemos ao longo da vida tudo aquilo o que nosso corpo não faz maquinalmente e tudo aquilo que o nosso desejo nos mostra a cada impulso e descoberta. E ainda assim decidimos pela manutenção do que não temos escolhas porque fazemos boas escolhas para que as coisas permaneçam no seu caminhar. 

E ao fim do sentir do outro, a dor virá, a decepção virá, quem sabe o choro também. Tudo bem também. As coisas vão se renovar e, numa próxima esquina e num pequeno espaço de tempo talvez, novas escolhas vão chegar. Com novas propostas, novas experiências, novas descobertas. E aí veremos que aquela nossa metade no outro, que achávamos única e se foi, mudou de ângulo, se redescobriu numa outra e se reequilibrou. Um novo reencontro. Uma nova caminhada. Uma nova metade. Um novo encaixe. Com quem vamos ser felizes novamente. 


16 de setembro de 2018

Finitos e infinitos

Somos cíclicos e finitos. Iniciamos e terminamos tudo na nossa vida. Início, meio e fim são itens comuns para o nosso dia a dia. Seja no que nos é pessoal, no trabalho, até o amor que, muitas vezes, é infinito enquanto dure. Claro que com licença às crenças espirituais de vida pós-morte, estamos falando de algo mais pragmático. Talvez projetos, projeções, apostas, desejos, relações e podemos incluir o que é físico. Somos cercados pela finitude do todo. Nosso corpo e a nossa mente estão acostumados a finalizar tarefas, desejar pelo fim, buscar a conclusão.

E esse pensamento pode nos levar às questões das redes sociais atualmente. São praticamente infinitas com atualizações e mais atualizações, mesmo que esse ou aquele assunto volte à toa, elas continuam a atualizar e trazer mais informações, atualizar e mais informações, atualizar, atualizar, atualizar. Muitas e mais vezes. Infinitamente.

Passamos os dedos de baixo para cima nos nossos smartphones numa busca pelo o que está por vir. Qual a próxima novidade? Qual a próxima foto, seja lá de quem ou do que for. Qual a próxima, a próxima, a próxima? 

Essa sensação de infinito contrasta exatamente com a nossa essência finita. E aí, algumas vezes, tudo isso nos funde a mente, nos deixa exaustos, nos deixa ansiosos e conectados com um formato que não nos individualiza. Mas não nos deixa com a impressão de estar ao relento e, sim, imersos ao todo. E aí muitas vezes sentimos diversos ir e vir de sensações: acelerar, anestesiar, prender, desfocar, despertar, impulsionar, subir novas montanhas. 

Tudo isso pode estar ligado a uma ansiedade sem controle. E aí isso pode, de verdade, nos afetar e nos fazer mal. O quanto só cada um de nós pode saber e sentir. Vai depender do que temos de limite, do quanto o ilimitado nos afeta, do quanto conseguimos medir e compreender o que não tem fim. 

E quem já se sentiu assim?




17 de agosto de 2018

E a beleza, de onde vem?

Beleza. Tanta beleza pelo mundo. Já paramos para pensar sobre como ela toca cada um nós?  Talvez seja algo tão subjetivo e apenas pensado e definido pela retina de quem vê. Beleza pode ser a escolha de um gosto individual que pode até passar por uma tentativa de ser medida por um grupo que compartilha de opiniões que caminham para a mesma direção. Mas não há como ser uma definitiva verdade para todos. Não há. Vemos isso se observarmos por todos lados as tantas possibilidades. Mesmo a beleza denominada mais exuberante do mundo pode não ser tanto assim para alguém. Mesmo aquela apontada como universal pode não ser a mais das mais para todos. 

Talvez o que nos ajudaria a desenhar um parâmetro para a definição do que é beleza pra cada um de nós seria voltar o nosso olhar para o meio que nos influencia, ao que somos submetidos, onde flutuamos e que tipo de referências temos. Ele, sim, pode não só nos influenciar mas nos empurrar a uma máxima eleita pela massa. E, desta forma, nos vem aquela sensação de que pertencemos a um grupo que fez a escolha da beleza. 

Não sei se todo mundo pensa ou percebe assim. Mas nascemos uma página em branco e, com o tempo, os conceitos vão se formando.  Na grande maioria das vezes, baseados em parâmetros pessoais oriundos de vivências, comparações, opiniões, perspectivas e, muitas vezes, expectativas. Jogamos, às vezes, no outro as nossas aspirações e encontramos nele o mais belo, o mais bonito, o mais desejado. Por vezes, o que está do lado de fora dele.

E aí nos perguntamos. E a beleza, de onde vem? Vem das métricas idênticas dos dois lados de um rosto? Vem do corpo estampado nas revistas ou na tv? Vem dos moldes ou modelos definidos por cada época social, impulsionados pelo o que aquela determinada cultura determina para determinado período? É tanta gente pra determinar tantas coisas que, na velocidade do nosso tempo, aceitamos sugestões impostas e imposições sugeridas.

E esquecemos mesmo de observar a beleza que mora logo ali dentro de um coração amoroso, paciente, benevolente, gentil. Esquecemos que o corpo envelhece, perece, vira pó. E que ele passa, chega ao fim. O que não passa e não esquecemos é o que cada corpo carrega bem ali dentro, ali no fundo. Beleza interna e, muitas vezes, transparente, explícita, infinita.

A criança magoada

É, não está tudo bem. Chegou o dia em que vamos nos sentir como a criança magoada que ficou irritada por não ser especial, por não ter toda...