19 de março de 2019

Sinto muito

Nesses últimos tempos, tenho pensado por qual motivo nós vemos e não enxergamos, ouvimos e não escutamos, presenciamos e não sentimos. Às vezes, parece que vivemos a esmo, quase como zumbis, passando apenas por um lado da calçada sem ao menor olhar para o lado oposto para saber o que, de fato, há por lá. Queremos andar. Apenas andar. Nem que seja para trás. Um quase vagar. Vamos duros. Inviáveis. Imutáveis. Sem maleabilidade nenhuma.

E aí eu fico me perguntando em que momento nós viramos pau, pedra, gelo, concreto? Nesse que parece um fim de caminho. Em que momento o fio se rompeu e ficamos pendurados nesse abismo que nos traz a sensação de que vamos sucumbir, que não há salvação e que quem andar pelo outro lado da calçada merece cair antes?

E me indago como chegamos ao ponto de tanta separação, tudo tão partido, repartido, num exagero unilateral. Tudo egoisticamente tão solitário. Tão nu. Tão cru. Por escolha, o que é pior pra nós. 

Tudo sem empatia, sem compaixão, sem benevolência, sem amor. E aí conseguimos ver que é muito isso. Sem amor por nós mesmos. Sem amor pelos nossos. Sem amor pelos deles.  Sem amor pelo outro. Sem amor. Sem amor.

Será que nós nos perdemos num mar de frustração, presunção, excessos, crueldade, exclusivismo? E, se for, nem sei onde isso vai nos levar. A barbárie escancarada e, algumas vezes, comemorada nos sentidos opostos nos esclarece que algo está muito errado. Em nós. E não vemos. E não ouvimos. E não sentimos.

Não sentimos. Não sentimos. Não sentimos mais. E eu sinto muito. Muito. Muito.



** Importante dizer que esses pensamentos não querem generalizar e nem apontar para cá, para esse ou aquele. Foi só um sentimento que veio num momento de reflexão diante de tantas coisas que passamos hoje em dia por aqui e também algumas vezes pela falta de indignação em determinadas situações da vida. Sei que cada um pensa de uma forma e meu respeito a cada um de vocês, viu! Sintam-se todos abraçados.

11 de março de 2019

Somos o que somos

É sobre não desistir. Insistir mesmo. Fazer e refazer. Muitas vezes. Independentemente do que pensam, acham ou esperam. Fazer pelo prazer de realizar o que se quer, o que se sonhou, o que se projetou. O que faz a vida mais feliz e mais plena.

Muitas vezes virão os olhares de sorriso. Daqueles que dizem “vá em frente”, “estou com você”, “tão bom ver você realizar”. Algumas vezes, a certeza de que o caminho parece se somar à empolgacão de ser o que se é já faz o dia ficar mais bonito. É o sinal de que estamos no fluxo, no que escolhemos, no que queremos. E isso nos basta para prosseguir. Quando a gente consegue encontrar a estrada do que somos, do tanto que podemos e do que será possível superar, a vida ganha novo sentido. E vamos cada vez mais além de nós. 

Mas, muitas vezes, virão os olhares de reprovação, sustentados pela inveja às vezes nem sentida pelo outro. Outras vezes, o desânimo vai se somar a uma fala qualquer de quem nunca teve coragem de ser o que é. Por vezes, vai ser só uma sensação de cansaço e de que nada caminha. Por vezes, vai ser a voz de quem realmente importa.

Nesse momento, tudo vai parecer desmoronar. Tudo vai parecer não ter rumo. Mas vamos então nos aproximar desse sentimento e observá-lo bem. Pode ser aquele medo do fracasso, da expectativa do outro e não a nossa, da ainda distante meta, do olhar paralisado por projeções que não condizem com a realidade. Pode ser só o nosso temor da frustração.

O que é, de certa forma, normal. Afinal, nascemos e crescemos para buscar uma perfeição idealizada, trancados em moldes que nos dizem o que é o sucesso. O sucesso do outro, o caminho do outro, o encontro do outro consigo. Olhamos o outro e traçamos o que talvez podemos ter. Muitas vezes, aprendemos que precisamos desse ou daquele caminho. E nunca que devemos construir o nosso.

Não olhamos sempre o que somos, nossos potenciais, nossas possibilidades. Deixamos de observar o que é nosso. Somos comparados e nos comparamos com o que nem sempre pode ser comparado. Acreditamos muitas vezes que vivemos no reflexo do outro.

E geralmente, em algum momento da vida, pode ser assim com todo mundo ou com meio mundo, vai saber.  Podemos até começar a vida assim. Até o momento em que aprendemos a nos olhar. Isso quando, de fato, aprendemos a nos olhar mesmo. Muitas vezes, vemos mas não nos enxergamos. Ou nos escondemos de nós.

É difícil nos depararmos com o que temos de sombra, com o que é difícil de compreender. As coisas boas costumam ser mais claras porque permitimos que elas se mostrem. Mas e o que não é tão bom? Fica lá no fundo, no fundo mesmo.

Entrar em contato com o que temos de sombrio, com as nossas imperfeições, sem deixá-las guardadas debaixo do tapete, pode ser um bom início para que possamos olhar para o espelho e reencontrar quem somos. E, assim, pensar nas mudanças possíveis, desejáveis, necessárias. As mudanças para que possamos ser o que somos. Simplesmente nós. Um brinde ao encontro e ao reencontro.


1 de outubro de 2018

Outra metade

As pessoas não vão pensar como a gente sempre. Não terão os mesmos desejos. Não vão escolher os mesmos caminhos. Seguirão na direção contrária. Muitas vezes nos deixarão chocados. Quando esse outro não é aquele que nos toca o coração e preenche os espaços que lhe oferecemos na vida, observar e ver que fazem escolhas tão distintas nos parece aceitável. Pode até ser, de certa forma, um pouco mais simples entender que a opção do outro cabe apenas a ele, apesar dos pesares. 

Mas quando vem daquele ser que temos a certeza de que a falta do seu apreço nos fará pagar um alto preço no desamor, o assunto é diferente. O mundo quase acaba, a casa praticamente desaba, perdemos até a respiração. O ar nos falta e a sensação é de que o chão se abriu e vamos para um abismo de solidão e não vamos mais nos recuperar. E aí pensamos: como o outro pode fazer escolhas tão distintas? Não éramos almas gêmeas, metades, partes iguais? Dramáticos, sim, com a nossa razão e com a certeza da perda. Doloridos pela ausência e inconformados com a mudança.

Parecíamos ser os mais completos do mundo e o todo mais possível naquele instante da vida em que as escollhas convergiam, em que as escolhas se misturavam e se completavam, em que as escolhas pareciam até simultâneas. Mas eram escolhas. E tudo bem. Porque na vida fazemos escolhas todo tempo. Escolhemos ao longo da vida tudo aquilo o que nosso corpo não faz maquinalmente e tudo aquilo que o nosso desejo nos mostra a cada impulso e descoberta. E ainda assim decidimos pela manutenção do que não temos escolhas porque fazemos boas escolhas para que as coisas permaneçam no seu caminhar. 

E ao fim do sentir do outro, a dor virá, a decepção virá, quem sabe o choro também. Tudo bem também. As coisas vão se renovar e, numa próxima esquina e num pequeno espaço de tempo talvez, novas escolhas vão chegar. Com novas propostas, novas experiências, novas descobertas. E aí veremos que aquela nossa metade no outro, que achávamos única e se foi, mudou de ângulo, se redescobriu numa outra e se reequilibrou. Um novo reencontro. Uma nova caminhada. Uma nova metade. Um novo encaixe. Com quem vamos ser felizes novamente. 


16 de setembro de 2018

Finitos e infinitos

Somos cíclicos e finitos. Iniciamos e terminamos tudo na nossa vida. Início, meio e fim são itens comuns para o nosso dia a dia. Seja no que nos é pessoal, no trabalho, até o amor que, muitas vezes, é infinito enquanto dure. Claro que com licença às crenças espirituais de vida pós-morte, estamos falando de algo mais pragmático. Talvez projetos, projeções, apostas, desejos, relações e podemos incluir o que é físico. Somos cercados pela finitude do todo. Nosso corpo e a nossa mente estão acostumados a finalizar tarefas, desejar pelo fim, buscar a conclusão.

E esse pensamento pode nos levar às questões das redes sociais atualmente. São praticamente infinitas com atualizações e mais atualizações, mesmo que esse ou aquele assunto volte à toa, elas continuam a atualizar e trazer mais informações, atualizar e mais informações, atualizar, atualizar, atualizar. Muitas e mais vezes. Infinitamente.

Passamos os dedos de baixo para cima nos nossos smartphones numa busca pelo o que está por vir. Qual a próxima novidade? Qual a próxima foto, seja lá de quem ou do que for. Qual a próxima, a próxima, a próxima? 

Essa sensação de infinito contrasta exatamente com a nossa essência finita. E aí, algumas vezes, tudo isso nos funde a mente, nos deixa exaustos, nos deixa ansiosos e conectados com um formato que não nos individualiza. Mas não nos deixa com a impressão de estar ao relento e, sim, imersos ao todo. E aí muitas vezes sentimos diversos ir e vir de sensações: acelerar, anestesiar, prender, desfocar, despertar, impulsionar, subir novas montanhas. 

Tudo isso pode estar ligado a uma ansiedade sem controle. E aí isso pode, de verdade, nos afetar e nos fazer mal. O quanto só cada um de nós pode saber e sentir. Vai depender do que temos de limite, do quanto o ilimitado nos afeta, do quanto conseguimos medir e compreender o que não tem fim. 

E quem já se sentiu assim?




17 de agosto de 2018

E a beleza, de onde vem?

Beleza. Tanta beleza pelo mundo. Já paramos para pensar sobre como ela toca cada um nós?  Talvez seja algo tão subjetivo e apenas pensado e definido pela retina de quem vê. Beleza pode ser a escolha de um gosto individual que pode até passar por uma tentativa de ser medida por um grupo que compartilha de opiniões que caminham para a mesma direção. Mas não há como ser uma definitiva verdade para todos. Não há. Vemos isso se observarmos por todos lados as tantas possibilidades. Mesmo a beleza denominada mais exuberante do mundo pode não ser tanto assim para alguém. Mesmo aquela apontada como universal pode não ser a mais das mais para todos. 

Talvez o que nos ajudaria a desenhar um parâmetro para a definição do que é beleza pra cada um de nós seria voltar o nosso olhar para o meio que nos influencia, ao que somos submetidos, onde flutuamos e que tipo de referências temos. Ele, sim, pode não só nos influenciar mas nos empurrar a uma máxima eleita pela massa. E, desta forma, nos vem aquela sensação de que pertencemos a um grupo que fez a escolha da beleza. 

Não sei se todo mundo pensa ou percebe assim. Mas nascemos uma página em branco e, com o tempo, os conceitos vão se formando.  Na grande maioria das vezes, baseados em parâmetros pessoais oriundos de vivências, comparações, opiniões, perspectivas e, muitas vezes, expectativas. Jogamos, às vezes, no outro as nossas aspirações e encontramos nele o mais belo, o mais bonito, o mais desejado. Por vezes, o que está do lado de fora dele.

E aí nos perguntamos. E a beleza, de onde vem? Vem das métricas idênticas dos dois lados de um rosto? Vem do corpo estampado nas revistas ou na tv? Vem dos moldes ou modelos definidos por cada época social, impulsionados pelo o que aquela determinada cultura determina para determinado período? É tanta gente pra determinar tantas coisas que, na velocidade do nosso tempo, aceitamos sugestões impostas e imposições sugeridas.

E esquecemos mesmo de observar a beleza que mora logo ali dentro de um coração amoroso, paciente, benevolente, gentil. Esquecemos que o corpo envelhece, perece, vira pó. E que ele passa, chega ao fim. O que não passa e não esquecemos é o que cada corpo carrega bem ali dentro, ali no fundo. Beleza interna e, muitas vezes, transparente, explícita, infinita.

2 de agosto de 2018

Viver bem

Não vamos dar ao outro o poder de nos tirar do sério. É isso muitas vezes que acontece no nosso dia a dia. Nós nos deixamos afetar pela ação, agressão, má vontade, falta de educação, falta de conhecimento do outro. Sabe aquela história que nossos pais diziam quando éramos crianças? Se o amiguinho chamou você de bobo e você não é bobo, então não liga pra isso. Acho que é muito por aí o caminho.

Estou com essa ideia na cabeça desde o mês passado e não conseguia parar para escrever. Resolvi isso no metrô pelo celular mesmo. As ideias foram vindo e memórias recentes se acendiam na mente. Porque é assim, a gente passa por isso, respira, reage ou não reage e depois reflete. Por conta do meu constante exercício e muito esforço diário de tentar olhar para o outro que ofende com olhos de benevolência, passei num teste recentemente quando uma pessoa não só foi debochada mas grosseira no telefone. E grosseria e deboche são duas coisas, pra mim, difíceis de lidar.

Mas consegui pensar num milésimo de segundo que estava tudo bem, que a pessoa do outro lado da linha deveria estar infeliz, deveria estar insatisfeita, deveria ter sido rejeitada de alguma forma, deveria estar chateada para ser desagradável diante de uma simples consulta que lhe foi feita e de uma resposta que deveria ser também simples. 

Tudo bem. Não liguei. Não reagi com a mesma energia. Agradeci. Desliguei. Deixei aquele calor que sobe pelo rosto no momento da ofensa passar. E respirei com todo alívio do mundo por não me deixar envolver por aquela energia ruim da pessoa naquele momento. Sorri. Ouvi um pouco de música, só um pouquinho por conta do trabalho, cantarolei, cantei mais um pouco, sorri de novo e tudo voltou ao normal.

Nem sempre foi assim. Tinha uma resposta na ponta da língua pra rebater a qualquer um, mesmo que não fizesse sentido algum. Mas a questão é que eu não podia perder aquela batalha. Afinal na batalha de ser desagradável, eu queria ganhar e deixar o outro com o desconforto que me provocara. Nossa! Pensar que isso é uma batalha é realmente pesado. Que peso é carregar isso. Descobri isso.

Não foi fácil aprender que isso era desnecessário. Que isso me exigia muito e me deixava exausta. Recebi a sugestão de deixar passar. De início, me ofendia ainda profundamente mesmo sem reagir. Ali dentro de mim, dava uns gritos. Reclamava comigo, me achava injustiçada. Não digeria bem. 

E aí recebi nossa sugestão. Receba, entenda que isso existe, que é o que a pessoa pode naquele momento e deixe  passar o que não é seu, a energia que não foi criada por você e com a qual não se sintoniza no momento. Ainda bem que ouvi, assimilei e estou conseguindo lidar com esse meu tipo de impulso reativo. Pensei que seria uma boa compartilhar isso. Claro que cada um pensa de uma forma e tem um temperamento. A ideia foi compartilhar mesmo.

Até porque todos nós temos aquele momento que o caldo quase entorna, que a energia quase explode. E tem dias que explode mesmo. Tudo dependerá do limite daquele dia, do ânimo daquele dia, dos aborrecimentos que absorvemos ou que deixamos passar. Acredito que só conseguimos lidar com o outro quando fazemos o esforço de lidar com a gente mesmo. Com as nossas frustrações, aborrecimentos, medos, decepções. Porque quando estamos no equilíbrio temos mais condições de dizer não ao desequilíbrio que nos sugerem. É fácil? Não mesmo! Mas é um caminho. O meu é esse agora. É a minha opção de viver bem e melhor comigo atualmente. Para viver bem com o mundo. 

Desculpem demorar tanto tempo para voltar aqui! A correria tem sido grande!

7 de julho de 2018

Ser gentil

Ser gentil não é ser subserviente ou bonzinho. Nem trouxa. Ser gentil é dividir com o outro o sorriso, a atenção, o bom humor. E tentar contaminá-lo com o que há de bom na vida. Ser gentil não é servir, é trocar, dar exemplo, compartilhar. É ser mais, é fazer o bem, é compreender que o outro é diferente, é testar seus próprios limites. E aprender a relevar o que é, muitas vezes, tão pouco diante das dores e das maldades do mundo. Essas coisas que, por sinal, estão nos deixando cada vez mais doentes, mais tristes, mais infelizes. Deixar a dor, a maldade, o egoísmo, o pouco caso nos afetar faz com que tudo isso se espalhe à nossa volta. 

A vida é feita de escolhas. Sim, ninguém é todo tempo feliz ou triste. Sim, ninguém consegue anular seus problemas num piscar de olhos. Sim, vamos chorar, vamos espernear, vamos nos frustar e vamos sofrer. Ninguém vai dizer que a vida será sempre uma lindeza e nada vai oscilar ou dar errado. Quem disser isso não deve saber o que é viver neste mundo louco. 

Não é essa a questão. A questão é o que vamos fazer com isso. Vamos nos afundar na tristeza, na depressão, no aborrecimento, no deixar de ser ou fazer do outro? Vamos abrir mão de tentar algo, reagir, reformular, retomar o caminho? Porque alguém não foi legal ou não nos apoiou ou não acreditou em nosso potencial ou não nos amou como gostaríamos? Vamos desperdiçar o momento, o passo à frente, a vida?

Não. Até podemos parar no caminho e entregar os pontos. Certamente em algum momento já fizemos isso. Ou vamos fazer. E se pararmos para pensar e lembrar desse exato momento em que nos abandonamos, vamos observar o tempo que perdemos dando atenção demasiadamente excessiva ao que achávamos ser o melhor do mundo no momento. E muitas vezes, vamos ver que esse melhor do momento vai passar ou vai ser superado ou vai se renovar.

Mas aí pode ser o ponto. É aí que podemos passar a fazer e escolher o que realmente importa. Só reclamar de nada vai adiantar. É só olhar para trás e relembrar, puxar na memório mais uma vez. Nada melhor do que as experiências para nos ajudar na direção a tomar. O problema é que esquecemos e repetimos, repetimos e repetimos um padrão. E reclamamos mais ainda. Ser gentil é antes de tudo ser gentil com a gente mesmo. 

Sinto muito

Nesses últimos tempos, tenho pensado por qual motivo nós vemos e não enxergamos, ouvimos e não escutamos, presenciamos e não sentimos. Às v...