10 de dezembro de 2020

O presente

Eu ando mexida. Por dentro. Lá no fundo, sabe? Às vezes, mesmo depois de meditar no início do dia, sinto como se, no peito, algo quisesse pular, saltar, ganhar vida própria nas horas seguintes. É um borbulhar, quase uma presença que ocupa um espaço bem no centro. E essa sensação se intensifica com música, melodias, o embalo do som. Com pensamentos e projeções. O corpo parece bailar com foco nesse lugar onde tem energia acumulada. 

 

É isso. É energia acumulada. E misturada de tudo um pouco. É tudo o que envolve o olhar para o passado e olhar para o futuro. É analisar o que ficou ali atrás e o que pode seguir mais à frente. É projetar o amanhã, lembrando do que aconteceu ontem. É um vai e vem de ideias, desejos, medos, inseguranças, certezas e tudo o que a mente pode produzir. E, ao mesmo tempo, não é nada.

 

Nada porque o que foi não volta. Não há mais como mudar lá atrás. Podemos até tentar ali na frente, mas o que foi, já foi. E o que vem não há como dizer como será. Imaginar, torcer, acreditar, tudo bem. Mas saber, saber mesmo, saber de verdade, aí não.

 

E foi nesse momento de análise que eu parei para prestar atenção nesse "mexe-mexe-mexe" dentro de mim. Respirei, silenciei pra ouvir meu corpo. E aquela sensação, que poderia ser incômoda em algumas situações e que poderia virar até palpitações de ansiedade - já tive isso e sei o quanto é difícil -, se tornou agradável. Coloquei minha atenção total no corpo e senti as batidas do coração. Eu estava ali. Estava bem. Estava comigo. Viva. No meu ritmo. No presente.

 

Quem está conseguindo fazer esse exercício diário e difícil de se manter no presente?




4 de dezembro de 2020

O lado

Dia desses, eu estava deitada e olhei para aquele lado esquerdo logo ali. Naquele instante, voltei num tempo nem tão distante. É doido pensar como pequenas situações podem nos provocar aqueles minutos que nos impactam e mexem tudo por dentro. E aquele momento nos joga naquele tempo hoje ausente e nos faz lembrar do espaço ocupado anteriormente. 

O espaço vazio daquele lado esquerdo nem sempre esteve tão presente nessa ausência, nesse silêncio que o mundo nos impôs ao nos deixar trancados do lado de fora e do lado de dentro. Aquele espaço foi ocupado nesse momento do novo. Ele veio com todo esse novo do mundo. Mas ele nem parecia estar mais na memória, antes desse meu mergulho de volta ao tempo em que o tempo, naquele tempo logo ali atrás, fazia sentido. Fazia sentir. E parecia sentir junto. 

Mas aí a gente se dá conta de que aquele tempo correu. Por falta da escolha no tempo. Daquele compartilhado por querer. Que, de repente, se torna escolha de um, vazio de outro. E aí a gente se toca do vazio que, antes, existia e que o que a gente queria era preencher. Preenchido. Vivo na presença. E, aos poucos, se estabelece como presença assumida. E depois some. Evapora. E, então, perde o sentido, quase se desfaz no ar. Vira ar. E voa pra longe. Pra onde nem tem mais lugar.

É doido também pensar como esses ciclos são vividos regularmente. Nascem, crescem, envelhecem e morrem. Um morre pra renascer num outro ciclo que se refaz, que se renova nas novidades e pode morrer ou não.

No início, olhei saudosamente aquele espaço ali. Queria a simplicidade de apenas ser e estar. E aí tentei justificar, rever, prever. Até descobrir que aquele vazio poderia estar ali. O espaço era meu. Só meu. E, pra ocupar esse lado, é só merecimento. Fazer por merecer. Merecer. 



25 de novembro de 2020

Como ou por que?

Na vida, em alguns momentos, uma pergunta persiste em nossa mente: como fazer determinada coisa? As ideias surgem, criamos e regamos os nossos desejos, construímos os projetos e nos entregamos ao "como" para buscar as realizações. 

A questão é que, diante das exigências do mundo atual de que precisamos antecipar os próximos passos - isso mudou nos últimos meses por conta do que vivemos no mundo - podemos nos colocar numa prática que pode perder o sentido. Nem todo mundo aceita essa "pressão" de realizações externas, mas ela existe em vários formatos. 

Há tanta informação, tanta sugestão no ar. Faça isso e seja aquilo. Invista naquilo e seja isso. Seja. Descubra como por aqui. Pelo caminho que podemos oferecer. Quem nunca viu algo assim que, por diversas vezes, toca naquele ponto lá no fundo que vai nos fazer pensar que seria o início de uma solução tão esperada? E, dependendo do nosso momento, nos jogamos mesmo.

Mas as perguntas primárias que seriam importantes antes de uma decisão de ação assim poderiam ser: por que e para que fazer a coisa determinada? Qual o motivo?  Qual a expectativa clara e real para isso? 

A urgência da vida nos faz, às vezes, agir sem saber porque exatamente estamos por aquele caminho. Quem indicou? Onde buscamos referências? Por que? Por que esse? Talvez seja bom pensar nesses detalhes, sem o automático da escolha. Para alguns, talvez seja uma boa escolha pensar assim. Talvez, para outros, não. E tudo bem. Mas pode ser que estejamos no "como fazer" para atender mais as expectativas externas do que os desejos legítimos. 

O bom é estar consciente no presente e entender o que quer e o que sente. E o porquê pode nos ajudar a seguir por um caminho que vai apresentar algo que nos transforme, mesmo que bem pouquinho, contribua para a vida, ajude com algum crescimento ou alguma reflexão. Se não for assim, não sei não. 



18 de novembro de 2020

O outro

Nessa retomada aqui, quero escrever um dia por semana, pelo menos. Talvez dois. Numa semana de muita inspiração, pode ser até três. É o espaço onde posso me expressar e também receber o olhar, a vivência e a opinião do outro - no caso, de quem vem aqui. 

A vida, na verdade, é assim: eu e o outro. Um inserido no outro. Um como parte do momento do outro. Seja lá quem ele for. Cada qual dentro da especificidade em que eu determinei para ele na minha vida ou na qual ele se faz presente. Os outros, na verdade. A cada passo, um outro pode surgir. A cada dia, um outro pode se apresentar. E outro, e outro, e outro.

O outro dentro. O outro fora. Num movimento interno e externo que, muitas vezes, nos confunde. E nos confunde porque, algumas vezes, damos ao outro a importância de conduzir a vida. Nos adequamos. Nos encaixamos. Nos confortamos com o que vem dele. Por ele. Para ele. 

Isso, muitas vezes, não fica nítido. Não nos parece que estamos virados totalmente ao outro, deixando à sombra o que deveria reluzir de nós. É só uma forma de não brigar, pensamos. É a melhor maneira que encontrei para que ele não se vá, refletimos. É o certo porque estamos aqui para ser um, acreditamos.

Mas é para ser cada um com a sua parte junto e cada parte o todo. Nunca sozinha. O todo para ter a possibilidade de divisão ou de manter as singularidades. Não é se iludir com a ideia do indivisível. A ideia é de junção. O meu mais o do outro. Soma. Adição. Um peso para duas medidas. Na mesma direção.

É difícil, eu bem sei. É, na verdade, aquele sempre "um dia por vez". E, lá no fim, é possível que a vida nos faça ver que escolher o menos pode ser como ficar com e sem o nada. Aí, sim, tudo vira só uma parte de solidão. E, no caso, a que, provavelmente, vai chorar.



11 de novembro de 2020

Cada um com seus amores

A vida mudou bastante este ano. Na forma de viver, de conviver, de se relacionar, em tantos formatos. Até de amar. Amar não só no sentido romântico. Mas no sentido mais amplo de se dar, se doar, deixar de olhar apenas para si, de virar-se para o outro e zelar por ele. E tudo isso na solidão ou na solitude. Na diminuição dos espaços. No mínimo. Na pausa. 

A mudança e o manter-se nesse caminho, no entanto, dependem das escolhas de cada um. Talvez, para alguns, a vida mostre que chegou a hora de novas diretrizes, de ampliar os limites, de fazer escolhas corajosas para viver. Apenas para permitir-se viver.

Sem o subterfúgio das intenções, o medo dos movimentos sem previsões, o desejo do controle inventado. Porque, de fato, não há controle, não há certeza do que será ou virá. Ou até mesmo o que cada um viverá. E nos privamos de sentir por achar que as dores já vividas podem voltar. Mas, na verdade, nada será como antes. 

Nada se repetirá. Nem agora e nem depois. Nem as dores. Nem as alegrias. Nem as pessoas. Essas chegarão e terão outras cores, outros sabores, outras intensidades. Virão por diversos caminhos, outras estradas, outras áreas, outras delimitações. 

Não há certeza de como pode ser cada uma das escolhas. Boa ou ruim. Clara ou escura. Mas terá imperfeição em algum momento, isso sabemos. Com as possibilidades de ajustes possíveis à perfeição e com a noção de que essa perfeição não chegará. Serão necessárias as concessões de afeto. 

É verdade que alguns podem preferir se manter no lugar onde estavam antes disso tudo. Não assimilar as mudanças. Deixar pra lá e esperar tudo isso passar. No movimento antigo de se segurar, não ver, simplesmente por não querer. Por saber que, uma hora, isso também vai passar. Porque vai passar. E tudo bem não querer mudar. Vai passar isso também.

Pra mim, o importante, nesses tempos atuais, é a sintonia. Mais do que nunca. É ter ideias que se encontram. Ter desejos que se alinham. Ter detalhes tão parecidos numa inevitável parceria. Ter liberdade para ser dois. Juntos. 

A vida continua a nos mostrar que uma coisa não mudou: cada um com as suas escolhas. Cada um com sua vida. Cada um com as suas possibilidades de amores. 

E o que mudou para você?



4 de novembro de 2020

Intuição

Começa assim. É uma voz, às vezes, bem baixinha que parece estar pertinho do ouvido. Às vezes, ela soa como se estivesse em câmara lenta. Já pensei algumas vezes porque isso acontece. Comigo, pelo menos. Acho que pode ser a minha consciência tentando interferir no que está por chegar. Pode ser também a minha vontade de não acreditar no que a voz quer me dizer. E aí, é como se eu tentasse burlar o momento. Por medo. Pra não ouvir. Pra não entender. Pra não saber o que vai acontecer.

Mas olha, eu vou dizer, é quase sempre certeira a mensagem. Lá no fundo, a gente recebe e percebe o que vem com ela e nem sempre quer confiar. E pensa: “ah mas, talvez, desta vez, seja a vez”. Ou então: “ah talvez seja o medo e o medo não pode ter vez”. Talvez, a gente pensa, quem sabe não seja melhor ficar coladinho na esperança de ser surpreendido pelo possível erro daquela voz que já avisou o que será. 

Mas, peraí, a voz também ajuda! E muito. Diz, outras vezes, que podemos seguir adiante, acreditar, apostar. Vai dar tudo certo. Vem junto uma sensação de quietude no peito e, de todo o jeito, a gente quer sorrir com aquela sensação de alívio. 

Muitos dizem que essa é uma especialidade da alma feminina, que, em seu íntimo, tem a sensibilidade de ir um pouco mais além, de ter um olhar amplo, que pode ir em várias direções ao mesmo tempo. Não sei se é verdade. Só uma alma masculina poderia dizer. Só sei bem que a feminina tem!

Mas, mesmo com os avisos, vou contar uma coisa. Só vivendo mesmo pra saber o que vai, de fato, acontecer. E o que pode ser. A questão é não deixar de dizer. Faço isso, na maioria das vezes. Deixo de dizer. Não digo o que senti. Deixo a vida correr. Algumas vezes, no território do outro. Do jeito do outro. No formato apresentado pelo outro. E aí, a minha voz se cala. E aquela voz se faz presente e acerta o que virá pela frente. 

E ela me diz: sim! E também me diz: não!

12 de julho de 2019

Aprender a dividir o tempo


Às vezes, a vida entra numa batida desenfreada e a gente já não consegue manter uma regularidade em algumas coisas. Outras ficam à frente por motivos diversos, porque vamos acumulando essa e aquela e aquela habilidade e somando esse e aquele resultado. Mas, no fim, a gente sempre volta ao que ficou um pouco para trás, busca o reequilíbrio e tenta recolocar as coisas nos eixos.

É assim que a vida me deixa longe, algumas vezes, daqui. Talvez como todos nós em algum momento, né? O tempo vai se sobrepondo e vamos abraçando o mundo com os braços de uma vez. E vamos buscando novos caminhos, sonhando mais, desejando mais, iniciando outras estradas. E até parece desleixo, ou falta de atenção, ou falta de cuidado. Mas não é. Não é mesmo. É falta de aprender a dividir bem o tempo.

Muitas das coisas que ficam de lado poderiam ser encaixadas no tempo que temos apenas pelo simples fato de organizarmos o que precisamos fazer. Parar, colocar no papel os compromissos e estabelecer como resolvê-los dentro de um determinado período. E isso é possível.

Não é fácil, na maioria das vezes. São tantas coisas para desviar do caminho, atrair a nossa atenção, prendê-la por minutos em algo aleatório que nem fazia parte do dia. Compromissos assumidos, novos desafios, a velocidade do tempo. Aquela correria que, muitas vezes, seguimos e nem precisávamos deixar que ela nos levasse assim.

Mas o que fazer com tudo isso? Com tantos e tantos? Como buscar o reequilíbrio e ajustar tudo dentro do nosso possível? Essas são perguntas que minha mente, muitas vezes, se faz. E aí vem o tempo corrido do que já se sobrepõe ao minuto que passou e preciso seguir com o que está à frente.

Não sei quem anda assim. Não sei quem se sente assim. Provavelmente a organização de alguns possa contribuir com a falta de organização e a vida corrida de outros. Quem quiser compartilhar ideias sobre isso, seja bem-vindx! 

Saudade daqui sempre ;) 

O presente

Eu ando mexida. Por dentro. Lá no fundo, sabe? Às vezes, mesmo depois de meditar no início do dia, sinto como se, no peito, algo quisesse pu...